Celibato, o chamado ao anúncio coerente de um Mistério de Amor!
- 20 de jul.
- 8 min de leitura
A coerência entre fé proclamada e vida concreta não é algo opcional para os cristãos. Todos os fiéis, através dos ensinamentos recebidos desde Jesus até os do atual pontificado, são exortados a viverem de modo que "seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não", sabendo que "não há nada de oculto que não venha a ser revelado, e não há nada de escondido que não venha a ser conhecido", buscando ter "transparência da vida. Vidas conhecidas, vidas legíveis, vidas credíveis!"(1), porque assim "sereis credíveis mesmo que ainda não sejais santos, e tocareis o coração das pessoas que estão longe, ganhareis a sua confiança e introduzireis Jesus"(2).
Tanto na relação da Igreja com a sociedade quanto internamente, é ponto comum afirmar que uma grande crise do momento se deve aos escândalos de abusos que nas últimas décadas foram tornados públicos. Debruçar-se sobre a realidade dos abusos eclesiais não é uma tarefa necessária apenas por serem crimes civis a serem denunciados, delitos canônicos a serem investigados ou uma questão moral a ser purificada. Uma Igreja imersa numa cultura de abusos(3) tem sua missão evangelizadora profundamente impactada, pois o seu anúncio do Reino deixa de ser credível para as pessoas e a sociedade, afinal essa cultura revela um antievangelho.
Embora, infelizmente, abusos sexuais de menores e vulneráveis e dinâmicas relacionais abusivas estejam presentes, até em maior número, na sociedade, é quando elas ocorrem ao interno da vida eclesial que são mais chocantes. Isso se dá justamente porque ocorrem manifestando algo frontalmente contrário àquilo que é a missão da Igreja.
A proposta deixada por Jesus a seus discípulos é de instauração de um reino de justiça, de misericórdia, de serviço ao próximo, de desapego material, de respeito à liberdade individual, onde o corpo de cada um é um templo sagrado no qual Deus habita e através do qual cada um deve manifestar ao mundo o seu ser imagem e semelhança de Deus. Na cultura de abusos denunciada pelo Papa Francisco e nas situações concretas onde algum dos tipos de abusos (econômico, espiritual, de autoridade, de consciência ou sexual) acontece, fica latente pela prática exatamente o contrário da proposta cristã. Essa incoerência gritante se torna uma mensagem muito mais relevante do que a teoria professada apenas em palavras.
Embora existam leigos que cometam cada um dos diversos tipos de abusos, é inegável que o escândalo maior e o fermento que leveda toda a massa provém da hierarquia, dos ministros ordenados, ainda que os abusadores sejam minoria. Por isso, é necessário analisar o fenômeno a partir da ótica vocacional formativa: por que tantos ministros ordenados não vivem de modo digno e coerente a vocação recebida e assumida? Por que diante das incoerências de alguns, a grande maioria não levanta a sua voz e toma atitude?
A resposta para um problema complicado não pode ser reducionista, mas, sem dúvidas, um dos principais aspectos que favorecem essa realidade é a imaturidade humana dos sacerdotes. Afinal, "a dimensão humana, que representa a 'base necessária e dinâmica' de toda a vida sacerdotal"(4) deve ser o fundamento de toda a formação proporcionada aos ministros ordenados para promover o crescimento integral deles, para que possam crescer também em todas as suas outras dimensões, a saber, espiritual, pastoral e intelectual(5).
Toda vocação cristã é chamado ao serviço do próximo, à doação de si! O sacramento do matrimônio e o da ordem são sacramentos nos quais a pessoa batizada manifesta livremente, na vida adulta, qual será a sua condição específica para servir a Deus e ao próximo.
Quando uma pessoa assume a vida religiosa ou sacerdotal, pela natureza de sua vocação ser a de maior dedicação direta "às coisas de Deus" e não "às do mundo", espera-se que essa pessoa viva mais ligada às coisas de Deus do que às do mundo. Ao se comprometer com a vida religiosa ou sacerdotal, a pessoa se propõe a viver uma relação em que Cristo é o seu tudo, o centro de seus afetos e ambições.
Por outro lado, toda a beleza de uma opção de vida tão transcendente é tocada por uma realidade com componentes muito humanos: o celibato! Celibato que é interpretado por muitos como algo meramente disciplinar. Na realidade, vai muito além disso! Ele é em si mesmo um anúncio primoroso do Reino onde Deus é tudo para todos, onde o amor é a palavra central, onde a doação completa de si faz sentido e dá sentido a todas as coisas.
Embora sobre a dimensão espiritual do celibato seja possível encontrar muita reflexão, sobre a integração das dimensões espiritual e humana parece ser menos frequente que se reflita. O celibato é um chamado divino para pessoas de carne e osso viverem, já nesta vida, o que é próprio dos Céus. As realidades celestiais não podem nunca prescindir das humanas envolvidas para que a vocação seja bem realizada.
A sexualidade é uma dimensão constitutiva da pessoa. Não há ninguém criado sem ela ou que possa viver alheio a ela. E isso em nada é ruim; pelo contrário, sendo parte do projeto originário de Deus para o ser humano, é uma bênção!
Dois modos de entender a centralidade da sexualidade na vida humana são segundo um perfil psicológico ou conforme um perfil psicanalítico(6). O primeiro caso permite que ela seja compreendida em relação com o sentido da vida e os valores que a estruturam: a sexualidade é uma energia (algo que gera movimento), relacional, que tem abertura ao diferente de si e que é fecunda. O segundo modo é o que mais interessa à reflexão do momento; considera a sexualidade em relação com as necessidades humanas, tais como aceitação social, percepção positiva de si, agressividade, domínio, curiosidade sexual, consumo, poder...
Através dessa segunda visão é possível afirmar que a sexualidade está no centro da geografia intrapsíquica do ser humano e o instinto sexual proporciona uma série de gratificações às necessidades anteriormente mencionadas. Quando o celibatário assume sua vocação e renuncia ao exercício da genitalidade, acaba por renunciar automaticamente também às gratificações naturais que poderia receber através dela. O celibato precisa ser assumido como um tesouro pelo qual toda a renúncia é feita cheia de alegria e amor, e não como uma condenação que privará a pessoa de bons momentos.
A falta dessas gratificações naturais coloca o celibatário numa situação de pobreza, de carência de algo que o ajudaria a ter um melhor equilíbrio interno a partir de sua dimensão afetivo-sexual. Isso pode passar a ser um problema principalmente em duas ocasiões: se o celibato é entendido como algo disciplinar, exterior, da lei, uma imposição no qual não se encontra um motivo precioso para vivê-lo; ou se na situação de pobreza afetiva o celibatário começa a buscar gratificações a partir de sua relação com as coisas, com as pessoas, com o ministério... As duas ocasiões costumam se manifestar juntas e se retroalimentarem.
Para deixar mais claro: o celibato não é a ausência de relações humanas, afetivas, na qual a pessoa pode amar e se sentir amada. O celibato é a dinâmica de relação não exclusiva, na qual a pessoa não se coloca no centro, onde as coisas não se referem a ela pessoal e diretamente, mas ao modo como em cada relação e cada ocasião a presença de Deus pode se manifestar em favor do outro. O celibato é em si mesmo um anúncio: o anúncio de um amor que preenche e dá sentido a todas as coisas, um amor que não tem fim nem com a morte, um amor pelo qual vale a pena viver e se doar, amor que quando falta, ainda que se tenha tudo nada se tem, e que quando está presente, mesmo em situações de carência absoluta, nada falta! O celibato é o anúncio de um Mistério de amor!
Quando não é visto dessa forma, o celibato, com o passar do tempo, se torna pesado e desgastante, e o celibatário tende a começar a buscar outras gratificações que deem a ele a sensação de harmonia interior. Muitos farão isso buscando a aprovação de outras pessoas para gratificarem sua autoestima; outros usarão do sucesso da "carreira" e dos estudos para se sentirem valorizados; não poucos aproveitarão da autoridade que podem exercer para se colocarem na vida dos outros como os poderosos que devem ser obedecidos e jamais questionados; outros tantos vão buscar gratificações no exercício de sua agressividade, no saciar de sua curiosidade sexual (em vídeos e piadas, por exemplo) ou no consumo de substâncias, produtos e conteúdos on-line.
A dinâmica da busca por gratificação para se obter a sensação de harmonia interior é semelhante à de um vício qualquer: a pessoa tem uma atitude que parece harmonizar uma inquietação, isso se repete algumas vezes, até que para ter a mesma sensação de harmonia a dose do comportamento/consumo precisa ser maior. Quanto mais a pessoa busca a harmonia interior através de gratificações, mais necessidade de gratificações ela passa a ter, além de crescer a sua insensibilidade ao sofrimento do outro.
Tudo isso é gravíssimo porque a pessoa que antes era livre, conforme o momento de dificuldade da vida em que se encontre e não sabendo lidar com suas realidades interiores, passa a se colocar numa situação em que depende sempre mais das gratificações para se sentir bem e conseguir levar a vida e a vocação adiante, passando a ter a sua consciência moral progressivamente silenciada e não conseguindo mais perceber que alguns dos seus comportamentos não só não têm a ver com sua identidade vocacional como também são prejudiciais a outras pessoas. Com o entorpecimento da consciência, com a necessidade crescente de gratificações e com a insensibilidade ao sofrimento das outras pessoas, o celibatário deixa de ser aquele que dá a vida pelo bem do próximo para ser o mercenário que rouba a vida e a dignidade do outro em nome do seu próprio bem e harmonia interior.
Os abusos eclesiais se encontram justamente nessa dinâmica, onde a falta de uma boa formação humana vocacional deixou os celibatários vulneráveis em sua vivência cotidiana, tornando-se homens e mulheres cada vez mais imaturos, autorreferenciais, insensíveis ao próximo, incapazes da verdadeira doação de si e mendigos de afetos, de reconhecimento e boas sensações.
Nenhum abuso sexual ocorrido ao interno da vida eclesial se deu fora da dinâmica das relações de autoridade, seja ela moral ou constituída. A realidade dos abusos na vida da Igreja católica está sempre ligada a quem deveria se colocar como servo, que acha que tem direito a algum privilégio, nem que para isso deva usar dos bens que não lhe pertencem e das pessoas como se fossem objetos.
Quando a Igreja fala em seus documentos da centralidade da formação humana no caminho de formação inicial e permanente dos sacerdotes, afirma isso porque sabe que uma pessoa imatura não tem condições de abraçar o celibato e vivê-lo bem. Os celibatários imaturos, mais cedo ou mais tarde, em alguma medida, se tornarão mercenários capazes de roubar, matar e destruir, desde que isso lhes permita se sentir melhor e gratificados momentaneamente.
Nesse contexto, pensar na prevenção e no combate aos abusos ao interno da Igreja precisa necessariamente passar pelo refletir e atuar em favor da maturidade humana de seus ministros através da formação e do acompanhamento desde os anos iniciais até o fim de suas vidas. Mais do que ministros que não sejam abusadores, a Igreja e o mundo têm necessidade de celibatários que com suas vidas coerentes ecoem o maravilhoso anúncio de um Mistério de Amor!
Referências:
LEÃO XIV. Homilia nas ordenações presbiterais. Vaticano, 31 maio 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/homilies/2025/documents/20250531-ordinazioni-presbiterali.html Acesso em: 19 fev. 2026.
LEÃO XIV. Mensagem aos sacerdotes de Paris. Vaticano, 4 jun. 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/fr/messages/pont-messages/2025/documents/20250604-messaggio-sacerdoti-parigi.html Acesso em: 19 fev. 2026.
FRANCISCO. Carta ao Povo de Deus que peregrina no Chile. Vaticano, 31 maio 2018. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/es/letters/2018/documents/papa-francesco_20180531_lettera-popolodidio-cile.html Acesso em: 19 fev. 2026.
DICASTÉRIO PARA O CLERO. O dom da vocação presbiteral: Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis. Vaticano, 2016. Disponível em: https://www.clerus.va/content/dam/clerus/documenti/ratio-2026/Ratio-PT-5-12-2016.pdf Acesso em: 19 fev. 2026.
DICASTÉRIO PARA O CLERO. O dom da vocação presbiteral: Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis. Vaticano, 2016. Disponível em: https://www.clerus.va/content/dam/clerus/documenti/ratio-2026/Ratio-PT-5-12-2016.pdf Acesso em: 19 fev. 2026.
CENCINI, Amedeo. Hora de Deus. São Paulo: Paulus, 2011, p. 183-189.




Comentários