Uma necessária conversão: da cultura de abusos à sinodalidade
- há 5 dias
- 7 min de leitura
Introdução
Nas últimas décadas, a Igreja Católica foi abalada por uma série de escândalos referentes ao abuso sexual de menores. Foram milhares de casos, dezenas de milhões de dólares gastos em processos e indenizações e, o pior, milhões de pessoas afetadas — vítimas primárias e secundárias, que tiveram suas vidas, dignidade, físico, emocional e fé profundamente feridos.
Muitos são os elementos dessa realidade que causam estupefação. É chocante pensar que exista violência sexual, especialmente contra crianças e adolescentes, quanto mais que essas ocorram dentro do ambiente cristão e tendo como agentes homens e mulheres que se comprometeram a doar suas vidas no serviço do próximo e anúncio do Evangelho.
Na observação do fenômeno, é chocante perceber que, embora haja desconforto e surpresa iniciais, em muitas ocasiões — mesmo depois de tantas situações reveladas e tantas vidas destruídas — até agora casos são negligenciados e pessoas usadas, tudo isso visando manter a boa fama da Igreja perante a sociedade e o privilégio daqueles que gozam de alguma autoridade moral ou espiritual ou de algum cargo relevante.
A sociedade e algumas pessoas ao interno da Igreja questionam com lucidez: “Como é possível que alguém que proclama a mensagem e os valores do Evangelho (dignidade humana, liberdade, pureza, castidade, cuidado com o próximo...) com suas palavras e vocação escolhida possa agir de modo tão contraditório?” ou ainda “Como é possíveis que ao saber desses crimes, que são também delitos canônicos gravíssimos, tantos superiores, bispos e cardeais se mantenham apáticos, negligentes e, em muitos casos, combativos contra as vítimas e suas denúncias?”.
A resposta que parece mais esclarecedora é a que se baseia na existência de uma cultura na qual a Igreja está imersa e, estando dentro dela, não consegue perceber com clareza o absurdo em que vive. A ideia de uma cultura de abusos não é novidade; essa realidade e termo foram apresentados pelo Papa Francisco na sua “Carta ao Povo de Deus que peregrina no Chile”, em 2018.
Para maior compreensão do que vem a ser uma “cultura de abusos”, é importante que tenhamos clareza sobre o que é uma cultura e quais são os elementos que a compõem.
Cultura, afinal, o que é?
No estudo antropológico, a noção de cultura é presente como um conjunto de conhecimentos, crenças, artes, leis e hábitos construídos e compartilhados por um grupo, transmitidos entre gerações. A cultura é um sistema simbólico que organiza a realidade social e que determina um modo de viver. Aplicar essa ideia à atual realidade eclesial seria, em outras palavras, afirmar que a existência de abusos é algo que se
tornou “normal”, que carrega em si elementos com os quais nós, Igreja, temos familiaridade, que vivemos com naturalidade em nosso cotidiano, que passamos de geração em geração entendendo que ela é parte da nossa identidade comum e que, de algum modo, nos organizamos em torno disso.
Toda cultura é composta por três elementos: mentalidade, sensibilidade e práxis — simplificando: a pessoa pensa que aquele modo de agir está adequado e não acha nada de errado nele; se sente interiormente atraída a agir daquela forma como sendo algo natural; e pratica aquele tipo de comportamento com naturalidade e frequência.
Elementos culturais são percebidos como estranhos e questionados quando são confrontados com outras culturas. No mais, o fato de “todo mundo” agir “sempre assim” faz com que a cultura se perpetue onde ela é vivida, até que seja confrontada ou exista a inserção de novos elementos por um grupo de pessoas.
Cultura de abusos na Igreja Católica
A partir da afirmação do Papa Francisco de que há uma cultura de abusos na Igreja, podemos analisar o modo como os três elementos constitutivos de uma cultura se manifestam na realidade eclesial:
Mentalidade: existem concepções pessoais e comunitárias que favorecem que abusos aconteçam no interno da Igreja e não sejam vistos com estranheza. Uma ideia de Deus diferente da revelada por Jesus, uma visão de Igreja equivocada onde a fama da instituição é colocada acima do bem das pessoas, a espiritualidade vista como práticas exteriores a serem adotadas, onde os ministros ordenados podem agir conforme os ideais que têm de um Deus poderoso que tudo pode fazer para que sua vontade prevaleça e que obtenham privilégios a partir das funções “sagradas” que devem exercer, mesmo que isso desrespeite a liberdade e autonomia de outras pessoas.
Sensibilidade: todas as pessoas têm uma orientação interior que faz com que ela se sinta atraída a um certo tipo de reação diante dos acontecimentos de sua vida cotidiana. Há quem diante de alguém em necessidade se comova e se coloque ao encontro para tentar ajudar e há quem passe em completa indiferença. Há quem diante do próprio erro sinta o desejo de recomeço e reconciliação e há quem siga a vida como se nada tivesse acontecido. Cada um tem a sensibilidade formada segundo as suas escolhas cotidianas. O cristão deve buscar ter em si “os sentimentos do Filho”, uma sensibilidade conforme a do Coração de Jesus, e quanto mais a pessoa se esforça nessa direção, mais suas reações vão ficando naturalmente à imagem e semelhança das de Cristo — o contrário também é verdadeiro. Daí a necessidade sempre urgente de se ter atenção à formação humana de cada um, a observar o modo como cada um reage aos acontecimentos de sua vida cotidiana, se conforme os “sentimentos de Cristo” e a identidade da vocação específica assumida ou se de modo imaturo, medíocre e contraditório.
Práxis: o modo de pensar e a atração interior em uma determinada direção propiciam que as ações se desenvolvam na mesma linha. Alguém que tem a ideia de que Deus é o todo poderoso e sem compaixão pelo homem, ao receber a Ordenação e cargos para agir em nome de Deus, agirá de modo a se mostrar todo poderoso e sem compaixão pelo próximo. Se essa pessoa é humanamente imatura, buscará fazer valer a sua autoridade sobre os outros para desfrutar de privilégios e ter suas carências saciadas. Se a instituição Igreja deve sempre ser preservada e as pessoas estão a seu serviço, então, diante de denúncias de coisas erradas e pessoas feridas, a atitude será de acobertar os erros, não instaurar processos ou mudança para não “prejudicar a imagem da Igreja” e as vítimas serão vistas como inimigas que devem ser desmoralizadas e silenciadas.
Quanto mais a prática cotidiana e geral se dá conforme uma mentalidade deturpada e uma sensibilidade incoerente e imatura, mais a mentalidade e a sensibilidade são enraizadas e tidas como “normal”. Quanto mais são tidas como o “normal”, mais são praticadas com naturalidade. De modo que se instaura um ciclo contínuo, cultural.
Uma nova cultura
Se o problema é a cultura vigente, a solução passa pela instauração de uma nova cultura. Simples assim!
Na Carta ao Povo de Deus que peregrina no Chile, o Papa Francisco começou a delinear alguns elementos dessa nova cultura: “...gerar uma cultura de cuidado que permeie nossa maneira de nos relacionar, de orar, de pensar, de viver a autoridade; nossos costumes e linguagem e nossa relação com o poder e o dinheiro.”
Para que essa nova cultura aconteça, se faz necessário que haja uma nova mentalidade, uma nova sensibilidade para gerar novas atitudes. Por isso, na mesma medida em que o Papa Francisco combatia a cultura de abusos, ele passou a promover a sinodalidade.
Uma cultura sinodal tornará realidade que, ao interno da Igreja, as relações não sejam abusivas, não sejam de uso do outro, dos bens ou dos cargos para proveito pessoal. É a sinodalidade que vai colocar todos juntos, como irmãos, para, diante de Deus, falarem, ouvirem uns aos outros e, especialmente, ouvirem ao Senhor. Só então as decisões serão tomadas não em causa própria, mas como fruto da escuta comunitária ao Espírito e para o bem de todos.
Não se pode confundir a experiência sinodal com um negar a autoridade hierárquica na Igreja; pelo contrário, a verdadeira autoridade é demonstrada pela coerência de vida e disposição de serviço, não pela imposição de suas próprias convicções. A autoridade de Jesus foi reconhecida não porque ele buscou se impor, mas porque ele era autêntico e coerente com o que dizia. Precisamos manter a clareza de que toda autoridade foi constituída por Deus e de que os ministros ordenados recebem uma graça própria para o pastoreio e o governo serem exercidos em favor do povo de Deus.
A sinodalidade precisa ser fruto da conversão pessoal e comunitária, onde cada fiel e comunidade estão comprometidos em dar um autêntico testemunho do Evangelho, que é manifestação da misericórdia de Deus na história. Isso não se tornará uma realidade eclesial por imposição autoritária.
É no chamado para que cada um assuma a sua própria responsabilidade e missão no fazer a Igreja superar este período conturbado de sua história que os Papas têm insistido tanto, falando contra a cultura de abusos, o clericalismo e a mediocridade. Se por um lado os esforços finais do Pontificado de Francisco estiveram em torno da promoção e implementação do Sínodo da Sinodalidade, os primeiros movimentos do Papa Leão XIV foram de continuidade na mesma direção.
Numa entrevista nos primeiros meses de pontificado, o Santo Padre afirmou: “Comprometamo-nos a construir uma Igreja totalmente sinodal, totalmente ministerial, totalmente atraída por Cristo e, portanto, voltada para o serviço ao mundo... Sinodalidade é uma atitude, uma abertura, uma disposição à compreensão.”
Em outras palavras, o que o Papa Leão XIV está propondo é a sinodalidade enquanto nova cultura eclesial; ele fala de um novo modo de pensar, sentir e viver o ser Igreja.
Como sabemos, uma nova cultura não será realidade por imposição autoritária; cabe a cada fiel — leigo, religioso ou clero — se dispor a viver sua metanoia, conversão de mentalidade, capaz de transformar suas atrações interiores e modificar suas ações, para que então as comunidades possam vislumbrar processos de mudança.
Aqueles que governam, que ensinam, que têm a oportunidade de promover a conscientização de alguma parcela do Povo de Deus devem fazê-lo com urgência! Combater a cultura de abusos e promover a sinodalidade não é tarefa opcional ou para alguns; é uma questão vital, diz respeito à essência da vivência do Evangelho que deve ser anunciado a todas as nações e que, sem um testemunho coerente, não é credível. A eficácia da missão evangelizadora na sociedade contemporânea passa pela conversão da cultura de abusos para uma cultura sinodal.




Comentários